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quarta-feira, dezembro 06, 2006

Pedalando no tempo (III)

(continuação de)

Os fios de fumo de lenha das lareiras e fogões da vila ascendiam ao mundo das nuvens, essas fumaças eternas que ensinaram à água como se voa. Dançando ao som dos ventos suaves do vale matinal, despediam-se gaiteiros do “Mil à Hora”, enquanto este voltava aos pedais desencontrados da sua bicicleta.

Para que sejam úteis, têm os pedais de andar às avessas um com o outro. Estica-se um deles num breve momento cimeiro enquanto o outro enterra-se num esforço descendente. Mesmo quando se encontram ao mesmo nível, apontam direcções diferentes. Ora que um olha esforçado para a frente enquanto o outro espreguiça o caminho que ficou para trás. Nunca se chegam a encontrar e nenhum serviria o seu propósito sem o outro, o seu oposto. É a única forma de colocar a bicicleta em movimento, por oposição. Também são assim alguns homens que, nunca se encontrando, vão esforçando o caminho numa mesma direcção, deixando como legado mais uma pedalada no trilho que o Destino vai desenhando nas subidas do Tempo.

Pensava nisto o jovem ciclista e comerciante, enquanto misturava o cheiro da urze com as suas reflexões. Os artefactos de ouro que transportava e que tantas pedaladas já tinham feito, mesmo antes dele lhes emprestar esta derradeira viagem na montanha, eram também legados de um destino traçado há muito. Era esse mesmo ouro que era brutamente extraído lá longe, em terras africanas, por mineiros enlameados que conheciam o cheiro verdadeiro da terra. Era esse que se via transportado nos grandes navios das fotos dos jornais, que partiam de mares remotos nos largos acenos dos marinheiros e chegavam em apertos curtos na estiva do rio. Era esse o mesmo que voltava a nascer quando trabalhado em oficinas nobres de mestres joalheiros e ourives da região. Esses artesãos, seres nascidos de monóculo feito olho, vislumbravam as filigranas dos dias com as suas habilidosas mãos e esculpiam nos indistintos bocados de minério a forma artística que o mundo teria se fosse um apetrecho de pendurar ao pescoço.

A semana prometia deixar como legado visitas a cinco destinos e uns tantos, muitos, quilómetros de solidão. Não prometendo, dava a esperança de se vender mercadoria e fazer negócio. Esperança de ser compra amorosa e de impulso. Esperança de celebrar o nascimento de mais uma alma disposta a trepar a escada da vida ou de comemorar o aniversário de alguém que tivesse subido mais um degrau dessa escadaria. Com muita sorte, chegaria a tempo da decisão de uma subida a dois e talvez até encontrasse um casamento. Ou um baptizado, onde os padrinhos quisessem dourar a subida prometida ao reino dos céus com ofertas que tivessem subido da vila à montanha numa bicicleta. Por alguma razão não totalmente entendida, o ouro e as jóias eram o presente mais previsível para marcar todos estes acontecimentos. Coisas incompreensíveis mas não desconhecidas do género humano.

De quando em quando, acontecia que alguém tivesse atingido o fim da escadaria e se tivesse precipitado para o além. Seja o termo “além” o que pense de diferente cada um de nós, sendo certo que, o que for, será igual para todos. A morte é um gume que cerceia aos vivos o gosto de dar, por não haver a quem oferecer. Pelo contrário, provoca nos mortos uma irrevogável generosidade e, partindo, distribuem os seus pertences terrenos aos futuros defuntos, incluíndo as jóias e o ouro. Em acontecendo estar de visita a uma aldeia após tão funesto acontecimento, não raras vezes se via o “Mil à Hora” no papel de avaliador e comprador desses despojos. Na vila, talvez conseguisse um melhor preço por eles.

Era assim que a fortuna dos acontecimentos em vida de uns e a falta da mesma na morte de outros, sendo opostos em qualidade, funcionavam como os pedais que moviam o pequeno ganha-pão do “Mil à Hora”, ajudando-o a subir a sua escadaria da vida. Uma escadaria em que os degraus da semana eram pedalados com esforço e trilhados com determinação por entre caminhos montanhosos, abrigados sob o céu caprichoso das estações, numa rotação de dias e noites. Dias duros em que apetecia viver. Noites solitárias em que era fácil sonhar.

(enquanto a inspiração e a motivação durar, continuará...)

sábado, dezembro 02, 2006

Pedalando no tempo (II)

(continuação de)

A vila já se antevia por entre os sumptuosos castanheiros. Os raios de sol que os acobreavam, numa moldura de luxo matinal, noticiavam que esta acordava. Não eram só os raios. A passarada também avisava, voando e poisando nos ramos das árvores que torneavam o trilho da montanha para a vila. Na direcção oposta, em direcção ao horizonte, voavam os cabos do telégrafo, acompanhando a estrada asfaltada e tiritando notícias que mantinham este ponto do mundo ligado ao novelo da actualidade. Das montanhas não existia fio para esse novelo. Bastavam-se na sua própria actualidade, tal como todos os que lá viviam.
Ao fundo da encosta, entre o casario de pedra pontilhado aqui e acolá de casas pintadas, abria-se uma clareira. A praça da vila era um espaço onde confluíam pequenas artérias desenhadas de mão livre, arrastando ruas de granito. Tinha como esquadria uma linha de edifícios baixos onde, quase sem excepção, o piso térreo era ocupado por comércio. No centro, um pequeno monumento comemorava uma qualquer efeméride da terra, com dois homens fardados olhando para a direcção da igreja, num dos topos. No outro topo, um fontanário chorava água nascida na montanha para matar a sede das casas cá em baixo.
Entre as pessoas que chegavam à praça, entre aqueles que vinham trabalhar e aqueles que se vinham fornecer, chega uma bicicleta pasteleira acostumada a estas paisagens. Todas as semanas, às segundas-feiras pela manhã, era esse o destino do “Mil à Hora”. Mais concretamente a ourivesaria do “Marialva”, esse personagem deslocado das lezírias para os montes mas que mantinha os arrozais nos seus olhos azuis, infinitos como a água que dorme a espelhar o rio no céu. Com os seus setenta anos de idade, era um homem que oferecia à sua experiência de vida a mesma genica que as crianças oferecem a uma primeira brincadeira. Existiu, entre o “Marialva” e o “Mil à Hora”, aquela empatia típica das almas irmãs mas não gémeas desde o momento em que se conheceram. Movia-os o negócio e a vida. Encontravam-se no estabelecimento antes deste abrir portas e iam à taberna que ficava duas portas ao lado para beber uma xícara de café ou de cevada fumegante com broa de milho ainda morna. Era no “mata-bicho” que se ultimavam preços e mercadorias. O “Marialva” deixava levar à consignação um quinhão de peças de ouro para serem vendidas de aldeia em aldeia, durante a semana. Cobrava um preço de amigo que permitia ao “Mil à Hora” acrescentar uma margem negocial para pagar as pedaladas e o tempo que passava por fora, na venda. O fecho de contas era feito no sábado, voltando à mesma xícara. Um pagava a mercadoria que havia vendido e entregava a que não tinha tido saída. O outro recebia e pagava a refeição, dizendo umas palavras de encorajamento ao negócio. Que o negócio estava difícil, como sempre esteve e sempre estará. Eram conversas tidas com o mesmo ritmo com que se pedalava, na sofreguidão de tempo de que ambos padeciam. Quem os ouvisse, eram como dois cavaquinhos a tocar na praça, abreviando naquela meia hora as pautas de negócio que regiam a orquestração da música da semana.
Lá fora, nos montes, os pássaros continuavam a voar sobre os castanheiros indo mais além, onde os pinheiros esticavam os seus braços às nuvens, sem as agarrar. O som da praça, que a esta hora já fervilhava de gente, ainda conseguia subir esses primeiros arvoredos. Mas quando os montes se transformavam em montanhas, estas eram uma praça de pedras e arbustos, com uma ou outra árvore solitária, onde apenas se ouvia o som do vento e da água que corria sem precisar de fontanários. Não era necessário fervilhar por ser início de semana. Afinal, nem a Montanha nem o Tempo sabem o que isso é.

(quiçá, ainda continue...)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Coisas fugazes

-Olá, tudo bem?
-Sim.
-Só sim? Não!
-Porque não?
-Porque sim...
-Pois sim...

Foi como se, tendo-se visto, não se tivessem encontrado...

terça-feira, novembro 28, 2006

Pedalando no Tempo (I)


Chamavam-lhe o “Mil à Hora” pela sua azáfama no respirar, no olhar, no fazer. Era um jovem que não tinha tempo a perder. Um tempo que lhe parecia sobejar menos a ele que aos outros. Esse tempo que não era muito. Nunca é. E teima em estar sempre a fugir desse outro tempo que é uma vida.
Ao começar da semana, quando os primeiros raios de alvor pincelavam o céu ruborizados, talvez pelos pecados da noite que passara, o “Mil à Hora” já estava pronto a sair em direcção à vila, na sua bicicleta pasteleira. Tinha sido comprada em segunda mão com os trocos desavindos de dias de poupança com sabor a fome. Dias onde o pós-guerra e um país mirrado e solitário deixavam a lição analfabeta e dura de que a riqueza só se cria poupando. O caminho que rondava o amontoado de casas em que se albergavam uma dúzia de almas dos rigores do tempo, estreitava em direcção ao ribeiro. Tinha a largura suficiente para passar uma junta de bois, mastigada nos extremos com precaução para não cair às águas num dos lados ou entalar o eixo da roda nos ramos baixos das árvores do outro. Era esse o portão de entrada para a aldeia. Ladeado com cabelos de junco e uma textura de casca de árvore morta que se sentiam no restolhar dos pneus que rodavam ao som do pedal. A partir daí eram montes, pedras e pedragulhos, o cheiro da natureza que indiciava a estação do ano. O perfume floral na Primavera, o doce dos arbustos e dos insectos no Verão, a humidade da terra no Outono e o frio cortante, que também se cheira, nos dias de Inverno onde ainda era possível fazer este caminho.
Estes cheiros existiam e duravam de forma lânguida, destoando do fervor do biciclo que rasgava os montes, contando o tempo em pedaladas. Segundo a segundo, como ele o merecia ou parecia merecer. É essa uma das cortesias que a Natureza tem com o Homem. Deixa-o agitar-se freneticamente nas rodas do tempo, sabendo da sua efémera e mortal presença e satisfazendo a sua sede de vida contada em dias, em horas, em segundos. A Natureza fala com o Tempo na sua verdadeira dimensão, numa escala que não existe em palavras humanas. Riem-se ambos com amizade de nós, humanos, exalando cheiros, cores e ruídos. Tudo a seu tempo. Como sempre foi.
(este texto é capaz de ter continuação...)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Cry me a river


"Well, you can cry me a river
Cry me a river
Cause I cried, I cried
I cried a river over you "
Ella Fitzgerald

Nasce como uma toalha de água que pede para ser enxugada. Uma fonte de dentro que faz brotar o que não tem palavras para se chamar nem nome para ser dito. A um ritmo. Ao ritmo do compasso coronário. Ao compasso com que medimos a vida. A esse que, em acabando, acaba por acabar connosco.

Cresce e tempera-se de sal. Experimentando o tempero dos contornos com que vemos o mundo. Aprendendo a dor de seres tu. E de ser eu. E de ser o que tu te transformas em mim. Desfazendo os contornos. Refractando cores e envelhecendo numa catarata que tudo desfoca. Menos a alma.

Desiste e escorre. Rola pelo que se beija como se fosse destino. Desliza como dois braços caídos. Um de cada lado. Lado a lado. Enrolados, rolando a caminho do fim.

Saboreia-se na sua própria morte. Entre os lábios que deveriam ser cama e são terra. Terra salgada, agora. Terra árida onde nada crescerá, nem um sorriso. Nem um beijo. Nem nada.

Imagina-se como seria se tivesse nascido, crescido, desistido e sido saboreada como lágrima. Só que a imaginação não é fonte de água. E não sabe a sal, como o que deveria ter sabido. Porque não se consegue. Porque não está lá e o rio não corre. O rio nem se chora.

O rio é apenas uma seca linha solitária que não existe a dois. E é por isso que não corre. Nem por mim. Nem pelo que correu em ti.

terça-feira, outubro 17, 2006

Pensamento à linha

Era uma daquelas noites onde o calor, miasmático, se entranhava intensamente na mente. Mais do que no corpo que transpirava para se desfazer das temperaturas do dia que havia passado. A luz branca do farol, fleumaticamente intermitente, avisava ao horizonte que a costa começava ali. Lembrança valiosa para aqueles que chegavam pelo mar e piada irónica a quem se via preso em terra, estando tão perto do seu fim. O vento definia o estado das coisas, recordando a sua existência por não existir, forçando o marasmo à turbulência intrínseca da Natureza. Ao longe, um casal de luzes de navegação encaminhava-se para a entrada da barra do rio. Verde e vermelha, um casal inseparável e feliz vivendo na ordem que só as convenções sabem ter. Verde e vermelha, juntas, iluminando diferentes um só destino. Era uma daquelas noites onde o calor, miasmático, matava o tempo com contornos de quem sabe que uma boa tortura é feita devagar e que uma boa vítima é aquela que não se esgota antes do desfalecimento absoluto.

E ele, todo ele era linha e cana, atirando ao infinito o isco das ideias que lhe iam surgindo. Entre ele e o rio de dúvidas que corria em direcção ao mar, apenas o paredão, apenas umas rochas envergonhadas e desnudas pela maré baixa. O tempo passava, escorrendo por esse fio que salvava uma suicida bóia fosforescente, pingando a rotina do dia no fluxo da maré. E o seu peixe, tal como o pensamento, não fisgava.

Não era a pesca em si que o trazia ali. Ali onde os peixes não eram presas porque não se caçavam, apenas desistiam da vida e, num último gesto altruísta para com o pescador e o seu balde plástico, engoliam o anzol. E não prestavam para mais que isso. O que o trazia à beira-rio era a justificação do tempo para si. Vou pescar! – dizia. E assim todos sabiam que iria estar sozinho e não o incomodariam. Se fosse fazer nada, o que diria aos outros? Poucos entendem o que é fazer nada. Especialmente se se faz nada sozinho. E isto pese embora o facto de existirem coisas que todos fazemos apenas para conseguir criar razões para realizarmos outras, as que não realizamos primariamente.

- Picou!- proferiu mais por instinto do que por reflexão consigo próprio. Picou o peixe e o tal pensamento que o tinha arrastado para lá em simultâneo. Agora tinha que retirar o anzol aos dois.

Na altura, tudo parece evidente, fácil, simples. Mas acontece que a força das idéias fraqueja com a análise do espírito. O próprio espírito tende a perder força quando sujeito ao tratamento do tempo. E tanto tempo que é uma noite...

E é por isso que agora, decorrida a noite, afoga-se o mesmo calor numa hierática caneca de cerveja que também sabe torturar sozinha, mas docemente. Para o Diabo com as ideias! Mais vale lançá-las de novo ao rio.

E assim foi!